O peso dos religiosos na política

Campanha presidencial de 2010 sinaliza aumento da importância do voto evangélico e católico nas disputas majoritárias.

Por Nestor Sartoretto

O peso dos religiosos na política

A presidente eleita Dilma Rousseff, do PT, que sobe a rampa do Palácio do Planalto agora no dia 1º de janeiro, chega ao poder após uma campanha eleitoral que chegou ao limite do que seria um tom civilizado. E os evangélicosficaram no meio desse tiroteio. Os principais partidos na disputa – o PT e o PSDB, com suas legendas coligadas – sonharam com o votoem bloco dos crentes. Em jogo, 25% do eleitorado, que, na expectativa dos políticos, obedeceriam cegamente às determinações de pastores e igrejas. A esperança na fidelidade de um suposto rebanho eleitoral calibrou a importância dosevangélicos durante a dura disputa do segundo turno. E a religião entrou abertamente na campanha, de uma maneira como nunca antes se viu por aqui, repetindo o que tem acontecido nos Estados Unidos. Tanto Dilma como seu adversário, o tucano José Serra, travaram um embate para demonstrar quem era mais crente. Enquanto Serra comparecia a uma feira de produtos evangélicos em São Paulo, com direito a distribuição de panfletos com sua foto e os dizeres “Jesus é a verdade e a justiça”, Dilma desmentia suas declarações anteriores sobre a descriminalização do aborto, defendia ampla liberdade religiosa e se reunia com os líderes que a apoiavam, comprometendo-se com a agenda evangélica de “defesa da família”.

A explicação para a súbita “conversão” dos candidatos que duelavam pela Presidência da República estaria na surpreendente votação de Marina Silva, do PV, no dia 3 de outubro. Ela obteve quase 20% dos votos e forçou uma segunda etapa, para tristeza do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de sua candidata Dilma, que esperavam uma vitória mais fácil. É que, na apressada avaliação da imprensa e de analistas ligados às campanhas do PT e do PSDB, o segredo da votação de Marina estaria no fato de ela ser evangélica (é da Assembleia de Deus), o que teria atraído o voto conservador, preocupados com a defesa de valores tradicionais. Tanto que, nos primeiros dias após o primeiro turno, Dilma e Serra se esforçaram para conquistar o eleitor crente, indo quase ao batismo nas águas.

No lado católico, o flerte também foi explícito, com presença obrigatória dos candidatos em eventos de grande apelo, como as missas em homenagem à Senhora de Aparecida, em 12 de outubro. Repetidas vezes, Dilma e Serra se afirmaram praticantes do catolicismo, ao mesmo tempo em que padres e bispos entraram no debate, questionando-os acerca dos temas mais delicados na agenda católica, como o aborto. “AIgreja Católica despontou como um ator capaz de pautar a discussão eleitoral”, avalia Luciana Gross, professora de ciência política da Fundação Gatúlio Vargas. Coincidência ou não, o índice de confiança na Igreja Romana, apurado numa pesquisa coordenada por ela durante a camnpanha, deu um salto, pulando de 34% para 54%.

Faltavam poucos dias para o primeiro turno e, de acordo com o instituto de pesquisa DataFolha, entre os eleitores evangélicos, Dilma detinha 42% das intenções de voto, contra 33% de Serra e 18% de Marina. Apesar de, na reta final, ter subido entre os crentes, obtendo alguns apoios expressivos, a candidata verde não fez uma campanha de fato voltada para o eleitorado evangélico, alcançando apenas o terceiro lugar no segmento religioso do qual faz parte. Durante a campanha, não foram poucos os ataques desferidos contra Marina em razão de seu suposto conservadorismo, dada sua religiosidade. Tudo mudou no segundo turno, quando a candidata já estava fora: a religião ganhou importância e eclipsou o debate em torno de programas de governo, que passou ao largo da propaganda eleitoral de Dilma e Serra.

Sem cabresto – Na verdade, as lideranças com maior visibilidade na mídia se dividiram, desde o início da campanha, entre o apoio a Dilma ou a Serra. Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus; Manoel Ferreira, da Assembleia de Deus de Madureira; e Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, fizeram campanha para a candidata do PT. José Wellington, dirigente da Convenção Geral das Assembleias de Deus; Waldomiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus; e Silas Malafaia, da Igreja Vitória em Cristo, dentre outros, deram apoio a Serra.

A participação desses líderes no processo eleitoral, no entanto, pode ter tido menos peso do que parece. Em entrevista ao site da BBC Brasil, o sociólogo Paul Freston afirmou que os evangélicos já não votam de forma coesa: “Não é um voto de cabresto. Mesmo quando o pastor é candidato e toda a igreja é mobilizada para votar nele, há casos de derrota fragorosa”. Opinião semelhante à do também sociólogo Alexandre Brasil Fonseca, para quem só há coesão dos crentes em termos culturais e sociais. “O espectro evangélico é amplo e inclui diversas tendências e opiniões”, diz. De qualquer forma, para ser eleita presidente da República com 56% dos votos, contra 44% de José Serra, Dilma Rousseff não abriu mão de uma ampla articulação que lhe assegurasse apoio entre os crentes. Já no discurso da vitória, ela tentou soterrar o clima de polarização e reafirmou seu compromisso com a democracia, a liberdade de imprensa e de crença e com o combate à miséria. Resta saber se os inúmeros comprometimentos da campanha, inclusive com setores religiosos, não dificultarão o cumprimento de suas promessas.

Fé nas urnas

As urnas foram generosas com os candidatos evangélicos nas últimas eleições. A bancada dos crentes na Câmara dos Deputados aumentou de tamanho e começa a nova legislatura, em fevereiro, bem maior. O número de deputados federais identificados como evangélicos deu um salto, passando de 49 para 71, o que corresponde a 14% da composição da Câmara, que tem 513 integrantes. De acordo com informações do site da Frente Parlamentar Evangélica, foram reeleitos 31 deputados, e quarenta vão para o primeiro mandato. O número não inclui os eleitos com apoio da Igreja Universal do Reino de Deus, que nem sempre votam em conjunto com os demais congressistas evangélicos. No Senado, reelegeram-se Magno Malta (PR-ES) e Marcelo Crivella (PRB-RJ), e o deputado federal Walter Pinheiro (PT) conquistou seu primeiro mandato de senador pela Bahia. O crescimento pode ter sido alavancado pela oposição da Igreja a vários pontos do terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos, o PNDH-3. O conjunto de medidas, sancionadas pelo presidente Lula, tem pontos considerados polêmicos pelos religiosos.

Reeleito, o deputado João Campos (PSDB-GO), que preside a frente, já acenou com o que promete ser a agenda da bancada: ele procurou o presidente da Câmara, Michel Temer – eleito vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff –, para pedir a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o aborto clandestino no Brasil. A frente tem integrantes de quase todos os partidos com representação no Congresso, tanto de oposição quanto da base do governo. Dois deles do PT: Gilmar Machado, de Minas Gerais, e Benedita da Silva (RJ). A nova bancada evangélica teve alguns campeões de voto. Audifax Barcelos (PSB) foi o candidato a deputado federal mais votado no Espírito Santo. Já o ex-governador Anthony Garotinho (PR) foi o mais votado do Rio de Janeiro, estado que elegeu o maior número de parlamentares evangélicos: 13. Já Bruna Furlan (PSDB) foi a terceira colocada em São Paulo. Muitos dos eleitos, porém, já assumem com problemas na Justiça. A começar por Garotinho, que conseguiu manter-se na disputa apesar de ter sua candidatura questionada pelo Ministério Público Eleitoral. A deputada eleita Antônia Lúcia Câmara (PSC-AC), chegou a ser presa durante a campanha, acusada de portar dinheiro vivo para comprar votos. Eleito por Rondônia, Nilton Capixaba (PTB) foi acusado em 2006 pela Polícia Federal de integrar a chamada máfia dos sanguessugas, com outros congressistas ligados a igrejas.

 

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